Planeta Lua

 

 

O satélite da Terra bem que merecia um lugar entre os outros mundos. Em tamanho não fica muito atrás de Marte ou Mercúrio. E agora acharam até indíciosde gelo em suas crateras.

 

Por Flávio Dieguez

 

Data: uns cinco bilhões de anos atrás. Cenário: o espaço onde hoje fica a Terra. Em vez de planetas cercados por vácuo quase perfeito, um mar de pedras encobre o Sol. Infinitas rochas, pequenas e grandes, riscam o céu a 50 000 quilômetros por hora num jogo de choques violentos.

 

Foi nesse oceano “semi-sólido” que a Terra foi construída. Construída é bem a palavra, já que a pancadaria estilhaçava, mas também colava as massas que batiam, formando blocos maiores. Resultado: começando com o volume de bolas de bilhar, em poucos milhões de anos as pedras estavam com milhares de quilômetros de diâmetro. Foi assim que nasceram os planetas.

 

A Lua surgiu dessa mesma maneira e, se não estivesse ligada à Terra pela gravidade, até poderia ser promovida a planeta. A começar pelo tamanho. Seu raio de 1 873 quilômetros, embora pequeno, é perfeitamente comparável ao de Marte ou ao de Mercúrio.

 

Nossa vizinha também possui atmosfera — mesmo que seja um véu muito tênue de sódio saído das rochas. E no final de 1996 surgiram sinais de que ela conserva alguma água. Por tudo isso, é muito tentador pensar que a Terra e seu satélite são, na verdade, dois planetas irmãos.

 

Mistérios derrubam as idéias

 

A teoria mais simpática sobre a origem da Lua é a de que ela é uma irmã da Terra, crescendo ao seu lado desde a época em que por aqui só se viam pedregulhos cósmicos, há 5 bilhões de anos. É uma idéia atraente porque as duas formam o par mais equilibrado existente ao redor do Sol. Basta ver que Ganimedes, o maior satélite de Júpiter e de todo o sistema solar, é 27 vezes menor que seu planeta, enquanto a Lua é apenas 3,7 vezes menor que a Terra. Juntas no céu, elas realmente lembram um mundo duplo.

 

Isso não basta para dar à Lua o título de planeta. Mesmo porque nem essa teoria inicial, nem as outras três elaboradas mais tarde, são inteiramente convincentes. Sempre esbarram em algum ponto obscuro, pois até hoje não está claro se a Lua evoluiu aqui mesmo ou em outra região do sistema solar. Também não se sabe porque ela se afasta de nós 3 metros a cada século. A sua composição química chama a atenção porque é bem parecida com a da Terra, de maneira geral. E apesar disso é muito pobre em ferro, contrastando com a abundância terrestre desse metal.

 

Mas se as pesquisas não produziram teorias definitivas, elas certamente ensinaram que os satélites têm tanta importância quanto os planetas. Isso fica claro quando se observa o grupo dos mais graúdos, ou seja, mais ou menos com as dimensões da Lua. Esse pacote inclui vários mundinhos de Júpiter, como Ganimedes (com 2 638 quilômetros de raio),

 

Calisto (2 420 quilômetros), Io (1 816 quilômetros) e Europa (1 563 quilômetros). E pelo menos um de Saturno, Titã (com 2 575 quilômetros de raio). Além do tamanho, eles têm outras características “planetárias”, como atmosferas, mesmo que rarefeitas, mares rasos e até movimentos geológicos internos. Enfim, só não podem ser chamados de planetas porque não giram em torno do Sol. De resto, mereceriam o nome com todo o direito.

 

Aqui, o improvável aconteceu

 

A notícia de que o satélite da Terra talvez tenha água, anunciada no final do ano passado, só podia mesmo provocar surpresa e espanto. Em princípio, lá não pode haver água. Siga o raciocínio: por ser pequena, a Lua tem baixa gravidade, ou seja, não tem força para segurar gás ou vapor à sua volta. E sem um gás para distribuir o calor, a temperatura oscila terrivelmente, descendo abaixo de 150 graus negativos à noite e subindo a mais de 150 graus positivos onde bate Sol. Isso faz a água evaporar e, mais cedo ou mais tarde, fugir para o espaço.

 

A única chance de obrigar o líquido ficar na Lua seria mantê-lo em congelamento eterno, em alguma região permanentemente coberta pela sombra. Essa hipótese, formulada pela primeira vez na década de 60 foi testada agora pelo geólogo Paul Spudis, do Instituto Lunar e Planetário, em Houston, Estados Unidos. Ele provou que perto do pólo sul lunar existe uma área onde é sempre noite, e tem sido assim há bilhões de anos. De posse dessa informação, Spudis esquadrinhou o local usando o radar da nave americana Clementine, que está circundando a Lua desde 1994. E embora o resultado não seja definitivo, mostra que o solo próximo ao pólo pode, sim, estar coberto por uma fina camada de gelo.

 

Essa água não deve ser natural do satélite. Ela provavelmente veio dos cometas, que são feitos de gelo. Para Spudis, os cometas que colidiram com a Lua no passado deixaram na superfície massas geladas que em seguida evaporaram. A maior parte do vapor foi para o espaço, mas aqui e ali pequenos volumes passaram por áreas escuras e congelaram. Em outras palavras, até a Lua que tinha nascido sem umidade arranjou um jeito de importar e conservar o líquido mais precioso que existe.

 

 

 

Reportagem colhida da revista SUPER INTERESSANTE, número 2, ano 11. FEV/97

 

 

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