Duas das noções mais
importantes nas teorias físicas são as de estado e a de grandeza, quantidade ou magnitude
física.
De um modo geral, estados são caracterizações básicas dos objetos físicos
tratados pela teoria. As grandezas físicas são as propriedades mensuráveis
desses objetos.
Vejamos, para
comparação, como essas noções são definidas na mecânica clássica. Pensando no
caso mais simples possível, ou seja o de uma partícula, ou “ponto material” de
massa m, o estado mecânico
clássico é representado pelo conjunto de seis números, usualmente
simbolizados por (x, y, z, px, py, pz), ou, em notação
vetorial, (r, p).
As grandezas físicas,
por outro lado, são representadas por funções que têm esses números
como argumentos, A = f (r, p). Exemplos simples
seriam a posição, r, o momentum p (que são as
grandezas que entram na composição do estado), a energia cinética, p2/2m, a energia
potencial armazenada numa mola, kx2/2, etc.
Estados em geral
evoluem com o tempo, em virtude de ações exercidas sobre o corpo. Na mecânica
clássica, a equação fundamental que rege essa evolução é, como se sabe, a
segunda lei de Newton, F = m a. Essa evolução
temporal é completamente determinista, ou seja, dado um
estado inicial, (r0, p0), e as forças que
agem sobre o objeto, a equação permite em princípio o cálculo do estado num
outro instante t qualquer, (rt, pt).
Passemos agora à
situação na mecânica quântica (MQ). Esta apresentação é muito simplificada, mas
os aspectos mais importantes para uma discussão dos fundamentos e implicações
filosóficas da teoria não serão afetados por essa simplificação.
Estados quânticos são representados por funções das coordenadas
espaciais (ou, alternativamente, do momentum) e do
tempo: Ψ(r, t), ou Ψ(p, t). Tais funções são
conhecidas como funções
de estado,
ou funções
de onda.
A última denominação se deve ao fato de que as primeiras funções investigadas
eram de tipo “ondulatório”, como a função que representa uma partícula com
velocidade constante, que em uma dimensão seria: Ψ(x) = N exp (2πi mv x / h), cujas partes
reais e imaginárias são ondas sinusoidais. O conjunto das funções de estado dos
objetos quânticos formam estruturas matemáticas chamadas espaços de
Hilbert.
De um modo mais geral, então, deve-se dizer que os estados quânticos são
“vetores” de espaços de Hilbert. (Mas não se trata necessariamente de vetores
do tipo mais simples, usado na física clássica.)
As grandezas físicas quânticas são representadas por operadores no espaço de Hilbert
associado ao objeto. Em termos simplificados, um operador é algo que transforma
um vetor do espaço em outro, e se simboliza:
Ψ’ = ΑΨ
Assim, o operador A corresponde, no
formalismo, à grandeza física A.
. (É comum que se use o mesmo símbolo para ambos o operador e a grandeza, mas
isso pode levar a confusões.) Um exemplo de operador simples e importante é o
operador momentum, que no caso unidimensional é P = - i (h/2π) ∂/∂x.
Atribuição de valores. O significado físico de uma grandeza
física requer, naturalmente, que se possa atribuir valores a ela. É isso que
permitirá colocar a noção em correspondência com a realidade empírica, a
leitura de um aparelho de medida. No entanto, neste ponto surge a primeira e
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mais fundamental
dificuldade de ordem interpretativa na MQ: Dados um estado Ψ uma grandeza A quaisquer, em geral o
formalismo quântico não atribui um valor a A ! Parece, então, que a teoria está falhando em sua função
essencial: a predição dos fenômenos (no caso, resultados de medida).
Dissemos “em geral”
porque há exceções: Pode acontecer que Ψ
e A sejam tais que
valha:
A Ψ =
a Ψ , com a real.
Neste caso a teoria
atribui o valor a a A , o que podemos representar
assim:
[A ]Ψ = a
Esse estado especial
é dito autoestado do operador A, e a seu autovalor. Todo operador tem
um conjunto de autoestados e autovalores associados. Os autovalores são,
portanto, os valores possíveis da grandeza associada ao operador, chamando-se,
em seu conjunto, o espectro da grandeza. Algumas
grandezas de certos objetos têm espectros contínuos, ou seja, os valores
possíveis que a MQ lhes atribui são números de um intervalo de números reais.
Outras grandezas têm espectros discretos, isto é, os valores possíveis são números
enumeráveis (podem ser colocados em correspondência biunívoca com números
naturais). A existência de grandezas com espectros discretos, ou quantizadas, representa uma das
características peculiares da MQ. (Na física clássica em geral as únicas
grandezas quantizadas são relativas a fenômenos ondulatórios: por exemplo, as
freqüências de uma corda esticada entre dois pontos fixos.)
Voltando ao problema
mencionado acima, notemos que ele é agravado pelo fato de que mesmo quando o
estado Ψ não é autoestado de A, medidas de A sobre o objeto são
inteiramente possíveis e dão valores bem definidos. Como interpretar
essa situação? Há duas posições possíveis:
1 A descrição quântica do objeto é incompleta:
não prevê valores de grandezas perfeitamente mensuráveis;
2 Os valores dessas grandezas “não existem”, ou não estão
definidos antes que se efetue a medida; a medida então “criaria” ou tornaria
definidos os valores (não sendo, pois, propriamente uma medida, no sentido
usual do termo: mera revelação de uma propriedade preexistente do objeto
investigado).
Entre os fundadores
da MQ, Schrödinger, de Broglie e, sobretudo, Einstein, mantiveram a posição 1.
Foi justamente para defender essa posição que Einstein, Podolsky e Rosen (EPR)
propuseram seu famoso argumento em 1935. Bohr, Heisenberg, Dirac, Born, Jordan,
Pauli sustentaram 2, que depois veio a se estabelecer como a posição “ortodoxa”
(também dita “de Copenhague”). O debate, no entanto, sempre continuou vivo,
tendo surgido posteriormente novos elementos para a discussão. Dentre eles,
mencionamos a criação, em 1952, de uma teoria mais completa que a MQ, a teoria de
variáveis ocultas,
de David Bohm; uma série de resultados algébricos que impõem
restrições severas a teorias mais completas que a MQ; e as desigualdades
de Bell e seus testes experimentais, que mostram que teorias desse tipo são
necessariamente nãolocais.
Probabilidades quânticas. Voltemos, porém, ao formalismo
quântico. Embora para cada estado quântico o formalismo sempre deixe de
especificar os valores de certas grandezas, atribui, no entanto, probabilidades de que
os valores sejam encontrados empiricamente, por meio de medidas. O primeiro e
mais importante passo nessa direção foi dado por Max Born, já em 1926, que
propôs a seguinte regra probabilista para o caso particular, porém fundamental,
da medida de posição de uma “partícula”:
A probabilidade de se
encontrar a partícula entre a posição x e x + dx é dada pelo módulo
quadrado da função de onda: |Ψ(x)|2 dx
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A “regra de Born”
(que por simplicidade enunciamos no caso unidimensional) pode ser generalizada
para uma grandeza física qualquer. Isso requer a introdução de mais alguns conceitos.
O produto
escalar de
duas funções de onda ψ e f é o número complexo definido por:
(ψ, f) = ∫ψ*(x) f(x) dx
onde mais uma vez nos
restringimos ao caso unidimensional, e ψ*(x) é o complexo
conjugado de ψ(x). Podemos calcular o valor
médio de
uma grandeza A qualquer, num estado
ψ qualquer, utilizando a noção de produto escalar:
<A>ψ = (ψ, Aψ)
Dado um autovalor a de um operador A, no caso simples de
só existir um autovetor f associado a a (“autovalor não-degenerado”)
define-se o operador
de projeção sobre f como o operador que transforma um vetor ψ qualquer do espaço de
Hilbert num vetor que difere de f por, no máximo, a multiplicação por um número
complexo l:
Pa ψ = l f
Se houver mais de um
autovetor associado a a, a projeção será
feita no subespaço de Hilbert varrido por tais autovetores: o vetor ψ é
levado a um elemento qualquer desse subespaço.
Finalmente, podemos
agora exprimir a probabilidade de encontrar o valor a numa medida de A no estado ψ é
dada pelo valor médio de P a , a grandeza física
representada pelo operador de projeção Pa:
probA ψ(a) = <P a>ψ = (ψ, Pa ψ)
Evolução temporal dos estados quânticos. Assim como na
mecânica clássica existe uma equação que rege a evolução temporal dos estados
clássicos, na mecânica quântica há uma equação fundamental, a equação de
Schrödinger,
que cumpre o mesmo papel:
H Ψ = (ih/2π) ∂/∂t Ψ
onde H é o operador
hamiltoniano,
que representa a energia total do objeto, e ∂/∂t é a derivada parcial
em relação ao tempo. Para um objeto sujeito exclusivamente a um potencial
escalar V, esse operador é:
H = -(h2/2m) ∇2+ V = -(h2/2m) (∂2/∂x2+ ∂2/∂y2 + ∂2/∂z2) + V
Deve-se notar que, à
semelhança do que ocorre na mecânica clássica, a evolução temporal regida pela
equação de Schrödinger é inteiramente determinista. No entanto, há
processos físicos aos quais essa equação não se aplica. Conforme já
mencionado, quando se efetua a medida de uma grandeza A em um sistema num
estado ψ que não é autoestado do operador associado A, a MQ não atribui um
valor a A . O fato de que mesmo
nessas circunstâncias uma medida de A sempre produz um resultado (a, digamos), associado
ao fato de que o formalismo prescreve que a partir da medida (se esta não destruir
o objeto) o estado passa a ser um autovetor de A que tenha a como autovalor,
implica uma transição de estado não regida pela equação de Schrödinger. (Esse
ponto pode ser demonstrado de forma rigorosa.) Essa transição, sim, é que
será indeterminista, se a MQ for considerada
uma teoria completa, i.e., disser tudo o que puder ser dito sobre o objeto. Em
outras palavras, a obtenção do valor a, e não de um outro autovalor qualquer
de A é uma questão de puro acaso, segundo a MQ.
A primeira grande
fonte de dificuldades teóricas e filosóficas da MQ é, lembremos, a da aparente
incompletude da teoria. Deve estar claro agora que é precisamente porque a
teoria deixa de especificar certos resultados de medida que se faz necessário
introduzir esse segundo processo de
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evolução de estado.
Na vertente ortodoxa, isso foi feito na forma de um “postulado”, sem qualquer
explicação teórica, e motivado unicamente pela necessidade de dar-se conta do
aparecimento de resultados de medida precisos quando das mensurações. Em 1935,
Schrödinger argumentou a favor da tese da incompletude da MQ explicitando um
problema grave que surge quando se investiga mais detalhadamente essa forma de
a teoria tratar o processo de medida, problema que ficou conhecido como o
problema do “gato de Schrödinger”.
Sugestões
de leitura.
Um excelente
livro-texto de MQ é Cohen-Tannoudji et. al. 1977. Outro texto relativamente
recente e que oferece um tratamento formal rigoroso e elegante da MQ é
Ballentine 1989. Squires 1986 apresenta noções essenciais sobre os estados
quânticos e sua interpretação a um público iniciante (para o formalismo, ver,
especialmente, a seção 2.2 e o apêndice 4).
Para uma discussão
simples da questão da completude da MQ, ver Chibeni 1992. Um tratamento mais
detalhado e aprofundado encontra-se em Chibeni 1997, cap. 3. Ambos os trabalhos
contêm extensas listas de referências aos artigos e livros originais.
O problema da medição
quântica está esboçado em nossas notas de aula Chibeni 2000. Para uma análise
bem mais detalhada, ver Pessoa Jr. 1992.
Clássicos sobre a
história da MQ são Jammer 1966 e Pais 1982. Um texto bastante acessível sobre o
debate histórico entre Einstein e Bohr é Brown 1981. Sobre o mesmo assunto, ver
também Ballentine 1972 e Paty 1995.
Uma importante crítica detalhada à
interpretação ortodoxa da MQ é Ballentine 1970. Um texto recente, preciso e
abrangente sobre os fundamentos da microfísica (incluindo um resumo didático do
formalismo quântico) é D’Espagnat 1994.
Referências.
BALLENTINE, L. E. The statistical interpretation of quantum
mechanics. Reviews of Modern Physics, 42 (4): 358-81, 1970. ––.
Einstein’s interpretation of quantum mechanics. American
Journal of Physics, 40:
1763-71, 1972. ––. Quantum mechanics. Englewood Cliffs, Prentice
Hall, 1989. BROWN, H.R. O debate Einstein-Bohr sobre a mecânica quântica. Cadernos
de História e Filosofia da Ciência, n. 2, pp. 51-89, 1981.
CHIBENI, S.S. Implicações filosóficas da microfísica. Cadernos
de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2(2): 141-164, 1992. ––. Aspectos
da Descrição Física da Realidade. (Coleção CLE, vol. 21).
Campinas, Centro de Lógica, Unicamp, 1997. ––. Uma breve introdução ao problema
da medida na mecânica quântica. (Notas de aula, 2000.) COHEN-TANNOUDJI, B. et.
al. Mécanique Quantique. Paris, Hermann, 1977.
D’ESPAGNAT, B. Le Réel Voilé. Paris, Fayard, 1994. (Há trad. para o
Inglês, The Veiled Reality.) JAMMER, M. The
Conceptual Development of Quantum Mechanics. New York, McGraw-Hill,
1966. PAIS, A. Subtle is the Lord. Oxford, Oxford University
Press, 1982. PATY, M. The nature of Einstein’s objections to the Copenhagen interpretation
of quantum mechanics. Foundations of Physics, 25 (1); 183-204, 1995. PESSOA
Jr., O. “O problema da medição na mecânica quântica: Um exame atualizado.” Cadernos
de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 177-217, 1992.
SQUIRES, E. The Mystery of the Quantum World.
Bristol, Adam Hilger, 1986.